Solidão não mata, mas pode precipitar situações que levem à morte

Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa e o quinto mais envelhecido do mundo. Apontam alguns estudos que o nosso país tem mais de 500 mil pessoas a viverem sós. A solidão acaba por ser a “companhia” mais comum e também aquela que acaba por fazer mais “estragos”. Não mata, mas pode levar à morte. Neste segundo artigo, dedicado à “Causa Desfavorecidos”, quisemos saber porque razão a solidão é mais comum à medida que envelhecemos e ouvimos opiniões. Segundo a psicóloga Lúcia Ferreira, a solidão na terceira idade é “diferente” da solidão nos mais jovens, visto que nos idosos, “além das consequências do isolamento social, há, muitas vezes, a sensação de abandono (ou mesmo o abandono real) daqueles que um dia os idosos ajudaram a criar”. Este abandono, explica a especialista, é interpretado, pelos idosos, “como uma consequência da sensação de serem um fardo, pois já perderam a vitalidade que os fazia sentirem-se úteis à sociedade e mesmo à família”. Também ao longo dos anos, “os idosos vão sofrendo múltiplas perdas significativas, seja do cônjuge, de amigos, colegas, a própria reforma, a saúde que se vai debilitando, tudo isto são fatores que aumentam a solidão nos idosos”, acrescenta. A psicóloga não tem dúvidas que “o impacto da solidão nos idosos é superior ao dos mais jovens, dado que a solidão implica menos interação social, logo menor atividade cerebral, que vai ficando comprometida e agravada”. “O facto de os idosos não desenvolverem atividades que ativem as componentes cognitivas (por exemplo, a atenção, concentração, linguagem, entre outras) é, por si, um fator de risco para o desenvolvimento de demências que, por si só, agravam também a solidão”, salienta, destacando que “a solidão nos mais jovens é, habitualmente, passageira, pois certamente acabarão por ocorrer situações na sua vida que os obrigam a sair deste estado solitário”. O impacto na saúde mental é significativo, mas não tão grave como nos idosos, que poderão já se sentir “no fim da linha” da sua vida”, sustenta.   Não significa depressão Acerca da diferença entre solidão e depressão, Lúcia Ferreira desmistifica a ideia de que a solidão é sinónimo de depressão. “Não, a solidão é um estado, e a depressão uma psicopatologia com contornos bastante graves e com abordagens terapêuticas muito diferentes”, explica a psicóloga. No entanto, adverte, “a depressão pode levar ao isolamento social (diferente da solidão) pelo mal-estar que causa e pela sensação de incapacidade de interação interpessoal, pela sensação de que já não vale a pena lutar contra esse mal-estar”. A solidão, por sua vez, pode levar à depressão, pela sensação de inutilidade, de vazio emocional e falta de objetivos de vida. “A solidão não mata, mas pode precipitar situações que poderão levar à morte, nomeadamente alguma patologia pré-existente que não é tratada, simplesmente porque a solidão impede a quem dela sofre de se aperceber do seu declínio quer físico quer mental”, clarifica, sublinhando que, “com a solidão, a pessoa pode simplesmente desistir de lutar, e isso sim, pode levar a um desfecho terrível”. Neste sentido, poder-se-á dizer que o sentimento de solidão é "psicológico"? Lúcia Ferreira esclarece que “há uma grande diferença entre a solidão e o isolamento social: a primeira não é escolhida, é uma consequência da vida que acarreta muito sofrimento, em especial o sentimento de abandono; a segunda é uma escolha”, constata. Lembra ainda que “há alturas na vida em que necessitamos de nos isolar do mundo, podendo fazê-lo para o nosso bem-estar psicológico, mas este isolamento termina assim que queiramos”, mas também que “há ainda pessoas que, pelas suas características de personalidade, se sentem melhor estando isoladas, sozinhas, do que em convívio. Mas isso é uma opção e não uma consequência”, fundamenta, concluindo que “o sentimento de solidão é devastador enquanto que o isolamento social pode ser até um escape”.   Pandemia veio agravar situações A psicóloga também não tem dúvidas que a pandemia veio agravar as situações de solidão já existentes e veio criar novas situações de solidão, na sua maioria graves. “Há inclusive, o receio de não mais voltar a ver familiares. Há, em alguns casos, o sentimento dos idosos de que não são mais visitados porque podem contagiar os seus familiares, ou seja, pensam que podem ser eles a transmitir o vírus e não o contrário”, salienta. Lúcia Ferreira considera que “estamos a viver um novo normal que não se compadece com a solidão dos mais idosos, o que é extremamente preocupante”. Além disso, considera que as complicações da solidão a nível da saúde mental, a adaptação aos tempos de pandemia é um processo “extremamente difícil”. “Isto para não falar do flagelo dos idosos que morrem sozinhos em sua casa, sem que ninguém se aperceba dos seus últimos momentos. Nestas situações a solidão é ainda mais desesperante e triste para pessoas que talvez tenham passado a sua vida a cuidar de outros”.

Solidão não mata, mas pode precipitar situações que levem à morte
Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa e o quinto mais envelhecido do mundo. Apontam alguns estudos que o nosso país tem mais de 500 mil pessoas a viverem sós. A solidão acaba por ser a “companhia” mais comum e também aquela que acaba por fazer mais “estragos”. Não mata, mas pode levar à morte. Neste segundo artigo, dedicado à “Causa Desfavorecidos”, quisemos saber porque razão a solidão é mais comum à medida que envelhecemos e ouvimos opiniões. Segundo a psicóloga Lúcia Ferreira, a solidão na terceira idade é “diferente” da solidão nos mais jovens, visto que nos idosos, “além das consequências do isolamento social, há, muitas vezes, a sensação de abandono (ou mesmo o abandono real) daqueles que um dia os idosos ajudaram a criar”. Este abandono, explica a especialista, é interpretado, pelos idosos, “como uma consequência da sensação de serem um fardo, pois já perderam a vitalidade que os fazia sentirem-se úteis à sociedade e mesmo à família”. Também ao longo dos anos, “os idosos vão sofrendo múltiplas perdas significativas, seja do cônjuge, de amigos, colegas, a própria reforma, a saúde que se vai debilitando, tudo isto são fatores que aumentam a solidão nos idosos”, acrescenta. A psicóloga não tem dúvidas que “o impacto da solidão nos idosos é superior ao dos mais jovens, dado que a solidão implica menos interação social, logo menor atividade cerebral, que vai ficando comprometida e agravada”. “O facto de os idosos não desenvolverem atividades que ativem as componentes cognitivas (por exemplo, a atenção, concentração, linguagem, entre outras) é, por si, um fator de risco para o desenvolvimento de demências que, por si só, agravam também a solidão”, salienta, destacando que “a solidão nos mais jovens é, habitualmente, passageira, pois certamente acabarão por ocorrer situações na sua vida que os obrigam a sair deste estado solitário”. O impacto na saúde mental é significativo, mas não tão grave como nos idosos, que poderão já se sentir “no fim da linha” da sua vida”, sustenta.   Não significa depressão Acerca da diferença entre solidão e depressão, Lúcia Ferreira desmistifica a ideia de que a solidão é sinónimo de depressão. “Não, a solidão é um estado, e a depressão uma psicopatologia com contornos bastante graves e com abordagens terapêuticas muito diferentes”, explica a psicóloga. No entanto, adverte, “a depressão pode levar ao isolamento social (diferente da solidão) pelo mal-estar que causa e pela sensação de incapacidade de interação interpessoal, pela sensação de que já não vale a pena lutar contra esse mal-estar”. A solidão, por sua vez, pode levar à depressão, pela sensação de inutilidade, de vazio emocional e falta de objetivos de vida. “A solidão não mata, mas pode precipitar situações que poderão levar à morte, nomeadamente alguma patologia pré-existente que não é tratada, simplesmente porque a solidão impede a quem dela sofre de se aperceber do seu declínio quer físico quer mental”, clarifica, sublinhando que, “com a solidão, a pessoa pode simplesmente desistir de lutar, e isso sim, pode levar a um desfecho terrível”. Neste sentido, poder-se-á dizer que o sentimento de solidão é "psicológico"? Lúcia Ferreira esclarece que “há uma grande diferença entre a solidão e o isolamento social: a primeira não é escolhida, é uma consequência da vida que acarreta muito sofrimento, em especial o sentimento de abandono; a segunda é uma escolha”, constata. Lembra ainda que “há alturas na vida em que necessitamos de nos isolar do mundo, podendo fazê-lo para o nosso bem-estar psicológico, mas este isolamento termina assim que queiramos”, mas também que “há ainda pessoas que, pelas suas características de personalidade, se sentem melhor estando isoladas, sozinhas, do que em convívio. Mas isso é uma opção e não uma consequência”, fundamenta, concluindo que “o sentimento de solidão é devastador enquanto que o isolamento social pode ser até um escape”.   Pandemia veio agravar situações A psicóloga também não tem dúvidas que a pandemia veio agravar as situações de solidão já existentes e veio criar novas situações de solidão, na sua maioria graves. “Há inclusive, o receio de não mais voltar a ver familiares. Há, em alguns casos, o sentimento dos idosos de que não são mais visitados porque podem contagiar os seus familiares, ou seja, pensam que podem ser eles a transmitir o vírus e não o contrário”, salienta. Lúcia Ferreira considera que “estamos a viver um novo normal que não se compadece com a solidão dos mais idosos, o que é extremamente preocupante”. Além disso, considera que as complicações da solidão a nível da saúde mental, a adaptação aos tempos de pandemia é um processo “extremamente difícil”. “Isto para não falar do flagelo dos idosos que morrem sozinhos em sua casa, sem que ninguém se aperceba dos seus últimos momentos. Nestas situações a solidão é ainda mais desesperante e triste para pessoas que talvez tenham passado a sua vida a cuidar de outros”.