"Nós não queremos ser a fina flor do entulho"

A Câmara Municipal do Funchal, através do Departamento de Educação e Qualidade de Vida, promove atividades para cerca de três mil utentes idosos, nomeadamente utentes dos Ginásios Municipais da Barreirinha, Santo António e São Martinho, do Centro Comunitário do Funchal e da Universidade Sénior do Funchal. Não há dúvidas que o envelhecimento pode ser vivenciado de várias formas. Há quem saiba aceitar as mudanças físicas que os anos trazem, há quem sinta mais dificuldade em fazê-lo. Há quem aprecie a solidão e há quem não saiba lidar com ela. Há quem se resigne e há quem resista em baixar os braços. Dolores, Ilda, Gilda e Lourdes são quatro mulheres que se enquadram neste último grupo. Reinventam-se todos os dias para não deixar a solidão entrar nas suas vidas. Dolores Oliveira, de 73 anos, trabalhou mais de 30 anos numa escola. Depois de reformar-se, aos 64 anos, sentiu necessidade de, como comunicadora nata que diz ser, continuar a fazer alguma coisa com que sentisse realizada. “Não era por solidão”, como faz questão de afirmar, era mais para se sentir “útil” e “ativa”. Com a pandemia essa vontade retraiu-se um pouco, mas não parou por completo. Frequentadora da Universidade Sénior do Funchal, Dolores tem, todos os dias, uma aula através da plataforma “Zoom”. Além disso, mantém rotinas, ainda que condicionadas por causa da pandemia, que a fazem sentir-se bem. Foi na Associação Olho.te, no Bairro da Nazaré que encontrou amigas que se tornaram “família” e conta-nos que tem sido ali que tem conseguido ultrapassar os dias “menos bons”. O “peso” da idade, confessa, só o sente quando quer andar mais e não pode ou quando quer subir uma cadeira. “O meu espírito continua a ser muito comunicativo”, declara, salientando que a solidão tem uma grande componente psicológica, advertindo, no entanto, que a sociedade deve ter também uma atenção diferente para com os mais velhos. “Não me venham dizer para eu deixar de fazer uma coisa por causa da minha idade. Eu vou fazer até deixar de poder”, declara. Reconhecendo que alguns idosos também não são “fáceis” e que, como qualquer ser humano, independentemente da idade, todos nós temos características próprias, Dolores Oliveira considera que falta, contudo, à sociedade mais tolerância e mais empatia para com as pessoas mais velhas. A mesma opinião tem Ilda Câmara, de 77 anos. Carrega às costas o peso da dor de já ter perdido os dois filhos e o marido. Há três anos que vive sozinha e confessa que não tem sido fácil levar a vida adiante e que é graças às atividades nas quais está inserida que encontra o alento necessário. Frequenta a Universidade Sénior e a Associação Olho.te e diz ter feito nestes lugares boas amizades. Luta todos os dias para não se deixar abater pelas emoções e não tem dúvidas que, ao ocupar-se de várias coisas, quase ao mesmo tempo, a deixa mais distante dos pensamentos negativos. Aliás, é esse o conselho que deixa a quem se sente triste e sozinho. Também Gilda Silva, do alto dos seus 84 anos (completados há poucos dias), é o exemplo de que a idade é apenas um número. Foi guia intérprete quase toda a vida e, quando deixou a profissão, ao fim de 47 anos, quis dedicar-se a atividades que dessem continuidade à sua vontade de expressar-se. Encontrou no teatro e nas artes plásticas aquilo que procurava. “Foi uma das coisas mais gratificantes que fiz”, considera. Hoje, frequentadora da Universidade Sénior e também da Associação Olho.te, Gilda recusa veementemente a “infantilização” que acha que é quase que imposta aos idosos, sobretudo nos centros de dia. Aliás, foi depois de ter frequentado um centro de dia que se apercebeu que, ali, não era o seu lugar. “Tratavam-nos como criancinhas, ponham-nos a fazer desenhos e a esvaziar saquinhos de açúcar”, recorda ainda hoje indignada. Bastante crítica em relação à forma de como a sociedade “olha” para os idosos, onde diz haver um “corte da criatividade das pessoas maiores”, Gilda também confessa que a pandemia e, consequentemente, o recolher obrigatório e a obrigatoriedade do uso da máscara “mexeu” consigo. Diz mesmo a brincar que acha que a máscara não a “favorece”. Alimentando o sonho de um dia poder voltar a viver sozinha, ao seu ritmo, a fazer aquilo que gosta, garantindo a sua privacidade, Gilda conta que, embora se sinta bem a viver atualmente com a filha, o seu maior desejo é, sem dúvida, “poder viver só, mas a comunicar com as pessoas”. Adversa às novas tecnologias, diz ainda que, “hoje em dia, deixou-se de pensar, de refletir” e que “o Homem deixou-se vencer pela máquina”.    Sonho por cumprir Lourdes Moniz, de 66 anos, é a mais nova deste grupo de quatro mulheres. Funcionária na Empresa de Eletricidade da Madeira durante 36 anos, Lourdes entrou há cerca de um ano para a Universidade Sénior. Entrou a conselho do seu afilhado e não tem dúvidas que foi a melhor coisa que fez. Embora sempre tenha vivido sozinha e aprendido desde cedo a lidar com a solidão, Lourdes explica que esta condicionante

"Nós não queremos ser a fina flor do entulho"
A Câmara Municipal do Funchal, através do Departamento de Educação e Qualidade de Vida, promove atividades para cerca de três mil utentes idosos, nomeadamente utentes dos Ginásios Municipais da Barreirinha, Santo António e São Martinho, do Centro Comunitário do Funchal e da Universidade Sénior do Funchal. Não há dúvidas que o envelhecimento pode ser vivenciado de várias formas. Há quem saiba aceitar as mudanças físicas que os anos trazem, há quem sinta mais dificuldade em fazê-lo. Há quem aprecie a solidão e há quem não saiba lidar com ela. Há quem se resigne e há quem resista em baixar os braços. Dolores, Ilda, Gilda e Lourdes são quatro mulheres que se enquadram neste último grupo. Reinventam-se todos os dias para não deixar a solidão entrar nas suas vidas. Dolores Oliveira, de 73 anos, trabalhou mais de 30 anos numa escola. Depois de reformar-se, aos 64 anos, sentiu necessidade de, como comunicadora nata que diz ser, continuar a fazer alguma coisa com que sentisse realizada. “Não era por solidão”, como faz questão de afirmar, era mais para se sentir “útil” e “ativa”. Com a pandemia essa vontade retraiu-se um pouco, mas não parou por completo. Frequentadora da Universidade Sénior do Funchal, Dolores tem, todos os dias, uma aula através da plataforma “Zoom”. Além disso, mantém rotinas, ainda que condicionadas por causa da pandemia, que a fazem sentir-se bem. Foi na Associação Olho.te, no Bairro da Nazaré que encontrou amigas que se tornaram “família” e conta-nos que tem sido ali que tem conseguido ultrapassar os dias “menos bons”. O “peso” da idade, confessa, só o sente quando quer andar mais e não pode ou quando quer subir uma cadeira. “O meu espírito continua a ser muito comunicativo”, declara, salientando que a solidão tem uma grande componente psicológica, advertindo, no entanto, que a sociedade deve ter também uma atenção diferente para com os mais velhos. “Não me venham dizer para eu deixar de fazer uma coisa por causa da minha idade. Eu vou fazer até deixar de poder”, declara. Reconhecendo que alguns idosos também não são “fáceis” e que, como qualquer ser humano, independentemente da idade, todos nós temos características próprias, Dolores Oliveira considera que falta, contudo, à sociedade mais tolerância e mais empatia para com as pessoas mais velhas. A mesma opinião tem Ilda Câmara, de 77 anos. Carrega às costas o peso da dor de já ter perdido os dois filhos e o marido. Há três anos que vive sozinha e confessa que não tem sido fácil levar a vida adiante e que é graças às atividades nas quais está inserida que encontra o alento necessário. Frequenta a Universidade Sénior e a Associação Olho.te e diz ter feito nestes lugares boas amizades. Luta todos os dias para não se deixar abater pelas emoções e não tem dúvidas que, ao ocupar-se de várias coisas, quase ao mesmo tempo, a deixa mais distante dos pensamentos negativos. Aliás, é esse o conselho que deixa a quem se sente triste e sozinho. Também Gilda Silva, do alto dos seus 84 anos (completados há poucos dias), é o exemplo de que a idade é apenas um número. Foi guia intérprete quase toda a vida e, quando deixou a profissão, ao fim de 47 anos, quis dedicar-se a atividades que dessem continuidade à sua vontade de expressar-se. Encontrou no teatro e nas artes plásticas aquilo que procurava. “Foi uma das coisas mais gratificantes que fiz”, considera. Hoje, frequentadora da Universidade Sénior e também da Associação Olho.te, Gilda recusa veementemente a “infantilização” que acha que é quase que imposta aos idosos, sobretudo nos centros de dia. Aliás, foi depois de ter frequentado um centro de dia que se apercebeu que, ali, não era o seu lugar. “Tratavam-nos como criancinhas, ponham-nos a fazer desenhos e a esvaziar saquinhos de açúcar”, recorda ainda hoje indignada. Bastante crítica em relação à forma de como a sociedade “olha” para os idosos, onde diz haver um “corte da criatividade das pessoas maiores”, Gilda também confessa que a pandemia e, consequentemente, o recolher obrigatório e a obrigatoriedade do uso da máscara “mexeu” consigo. Diz mesmo a brincar que acha que a máscara não a “favorece”. Alimentando o sonho de um dia poder voltar a viver sozinha, ao seu ritmo, a fazer aquilo que gosta, garantindo a sua privacidade, Gilda conta que, embora se sinta bem a viver atualmente com a filha, o seu maior desejo é, sem dúvida, “poder viver só, mas a comunicar com as pessoas”. Adversa às novas tecnologias, diz ainda que, “hoje em dia, deixou-se de pensar, de refletir” e que “o Homem deixou-se vencer pela máquina”.    Sonho por cumprir Lourdes Moniz, de 66 anos, é a mais nova deste grupo de quatro mulheres. Funcionária na Empresa de Eletricidade da Madeira durante 36 anos, Lourdes entrou há cerca de um ano para a Universidade Sénior. Entrou a conselho do seu afilhado e não tem dúvidas que foi a melhor coisa que fez. Embora sempre tenha vivido sozinha e aprendido desde cedo a lidar com a solidão, Lourdes explica que esta condicionante não a deixou menos sociável, antes pelo contrário, ocupa-se muito durante o dia aos outros. Aliás, é este lado altruísta e a sua opinião acerca da forma como a sociedade olha para os seus velhos que a faz alimentar um sonho, o de, um dia, gerir uma residência para idosos doentes que funcionasse, acima de tudo, como um ‘mini-hospital’. Lourdes conta que já manifestou esta vontade no passado, mas até hoje não a conseguiu concretizar. São demasiados os entraves que se lhe colocam pela frente. “Dêem-me uma casa, como dão casas para a Igreja, onde eu possa colocar meia-dúzia de pessoas doentes que eu conheço e sei que estão a precisar de cuidados porque vivem sozinhas”, lança o apelo, acrescentando que este seria o seu contributo para ajudar quem não tem forma de ser ajudado.   Associação Olho.te é como uma “segunda casa” A Associação Olho.te tem sido, para muitos idosos, um lugar onde encontram atenção e conseguem ser eles próprios. Apesar de o objetivo da associação seja o de trabalhar com a comunidade em geral, passando por todas as faixas etárias, os séniores têm ali um importante peso nas atividades desenvolvidas. Segundo Hugo Andrade, presidente da Olho.te, muitos dos séniores que hoje em dia frequentam o espaço estão ali por sua causa. Hugo dá aulas de teatro na Universidade Sénior do Funchal e a empatia criada com os seus alunos aguçou-lhes a curiosidade de conhecerem o espaço situado no Bairro da Nazaré, no Funchal. Aos mais velhos, este professor de teatro explica que não dá propriamente aulas de representação como são dadas numa escola para atores. “Com os séniores é precisamente a escola da vida, isto é, em vez de os ensinar são eles que me dão matéria dramatúrgica, argumentos para representarmos”, refere. Já na Olho.te, espaço onde muitos encontraram uma “segunda casa”, as atividades são outras. Passeiam, convivem e realizam tarefas que os fazem sentir-se úteis. Antes desta pandemia, as visitas à Olho.te faziam-se em horário pós-laboral, a partir das 17h00. Desde há quase um ano que os encontros deixaram de ser feitos presencialmente, mas a associação conseguiu encontrar formas de reunir as pessoas, mesmo que à distância. É que, se já antes muitas já sentiam uma grande necessidade de conversar, com o confinamento essa necessidade, de serem ouvidas e incluídas, foi agravada. Uma das iniciativas encontradas pela associação para quebrar com o isolamento foi o rezar do terço. Começou em março de 2020, mas continua em 2021. É um momento que vai para além de uma manifestação de fé. É um momento de encontro, mesmo que seja através de um ecrã e que, curiosamente, é aguardado diariamente por muitos porque é uma forma de não se sentirem sós.   Ajuda domiciliária chegou a 3.542 idosos O Instituto de Segurança Social da Madeira tem sob gestão direta 13 centros de dia e convívio, com capacidade para 307 idosos. Desenvolve também, em cooperação com diferentes Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) outras respostas sociais, que incluem 44 centros de dia e centros de convívio, com capacidade para 1.566 idosos. Em termos do Serviço de Ajuda Domiciliária, foram apoiados, no último ano, um total de 3.542 idosos. Desde o início da pandemia, o Governo Regional tem vindo a reforçar as medidas de apoio à população idosa. Criou as Brigadas de Intervenção Rápida para dar apoio extraordinário e pontual aos lares e equipas de apoio aos casos de covid-19, que obrigam ao isolamento profilático dos cidadãos nas suas habitações, sem retaguarda familiar ou outra rede de apoio próxima. Numa altura em que os idosos estão entre a população mais vulnerável, além das ajudantes domiciliárias que fazem visitas regulares, foi ainda criada a linha “Maior 65” (com o número de telefone: 800 20 25 65, todos os dias, das 09:00 às 00:00 horas). Esta linha, entretanto reforçada com mais um técnico, é destinada a minimizar a solidão e a responder às necessidades mais prementes dos idosos. Acerca destes investimentos, Augusta Aguiar, secretária regional de Inclusão Social e Cidadania relembra que “os objetivos estratégicos plasmados no programa do XIII Governo Regional refletem a prioridade da valorização e proteção da população idosa” Considera também que, “além de todo o investimento já feito e previsto pelo Governo Regional, no acolhimento dos idosos em estruturas adequadas, e na sua proteção em todos os contextos, incluindo o da pandemia da covid-19, é necessário continuar a apostar em medidas que prolonguem a sua qualidade de vida, e um envelhecimento ativo saudável, em comunidade”. CMF apoia três mil utentes apoiados A Câmara Municipal do Funchal, através do Departamento de Educação e Qualidade de Vida, promove atividades para cerca de três mil utentes idosos, nomeadamente utentes dos Ginásios Municipais da Barreirinha, Santo António e São Martinho, do Centro Comunitário do Funchal e da Universidade Sénior do Funchal. Durante a crise pandémica, a autarquia começa por revelar que promoveu contactos regulares com idosos registados nos programas do Fundo de Investimento Social da Autarquia e que, durante o processo de confinamento estabeleceu uma linha telefónica de apoio à população mais idosa. O objetivo foi o de reforçar o contacto com os munícipes que ficaram impossibilitados de frequentar os diversos espaços municipais, servindo ainda para reencaminhar os pedidos de ajuda para outros serviços camarários e serviços que trabalham em rede com o município. Madalena Nunes, vereadora com o pelouro do Desenvolvimento Social na CMF, explica que o encerramento dos centros de apoio e convívio, devido ao vírus e o consequente confinamento foi um processo “sem preparação prévia” e que preocupou a autarquia, até porque, estas pessoas, devido ao fator idade, “apresentam diversos riscos”. Aliás, foi neste âmbito que nasceu uma linha de apoio. “Queríamos evitar que estes idosos fossem assolados pela solidão e pelo medo da doença, e que perdessem as suas rotinas e interações, o que pode ter um efeito extremamente nocivo na sua qualidade de vida”. O trabalho de monitorização desta iniciativa tem sido realizado, desde então, pelos serviços municipais, nas mais diversas áreas, garantindo acompanhamento aos utentes do município, com o intuito de perceber como estão a vivenciar esta situação de crise pandémica, e ajudando a resolver problemas concretos do dia-a-dia.